terça-feira, 17 de julho de 2012

Tudo a seu gosto

Aos dezessete, dezoito anos comecei a frequentar casas que não eram bem casas, pois que as famílias ali não viviam nos moldes costumeiros, mas como jovens enviados por seus pais para estudarem em outras cidades. Alguns ainda mantinham junto de si o irmão, o primo ou mesmo um amigo de infância que a sorte ainda aproximava, mas a maioria - quando não simplesmente sozinhos - acabava por ter de dividir seus quartos com estranhos, gente cujas famílias nunca conheceu nem pretendia conhecer. Uma ou outra situação, no entanto, terminava no mesmo: pequenos espaços, janelas de cortinado pouco, colchões arranjados nos cantos, pilhas de manuais, computadores amarelados e móveis sem qualquer aparelhamento caprichoso.

Tive a perspicácia suficiente para entender essa nova ordem, os novos cheiros, as maneiras engraçadas que ali tinham. Enquanto jogávamos videogame, ofereciam-me não café, não chá, mas coca-cola em copo americano. Bolo mesmo não havia, mas podíamos fazer aqueles de caneca, que não se assavam no forno, mas no micro-ondas. Não colocávamos em pratos nem em talheres, mas era assim mesmo que nos divertíamos, comendo com as mãos, lambendo-nos os dedos. Entendia que o era não porque não pudessem organizar uma casa, mas por faltar-lhes a pretensão de estabelecerem-se ali por razoável tempo. Era como um acampamento. Não de guerra, mas de viagens exóticas e delicados festins ao ar livre.

Soube ter aquele leve desprendimento de si, da austeridade desnecessária que não conduz a nada, exceto ao claustro modorrento. Sentava no chão e jogava-me para trás, escorando-me nas almofadas de ricos bordados, mas que na verdade eram apenas travesseiros enfiados em lençóis encardidos. Seus pais podiam muito bem sustentar-lhes todas as comodidades de que pareciam carecer. Era coca-cola em copo americano, sim, não porque não tivessem coisa melhor, mas porque escolheram. Tudo a seu gosto, desde que leve. Há um verme em meu cérebro que me mordiscaria dia e noite caso eu levasse uma vida assim. Mas há os que não se importam, os que até mesmo preferem. Suspeito que essa seja inclusive sua condição.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Duke Senior

“This is no flattery. These are counselors
That feelingly persuade me what I am.”
(As You Like It, Shakespeare)

Um bom conselho não pode ser dado por quem não desfruta das doçuras da liberdade. Um bom conselho não pode ser dado por quem lhe deve a vênia, o cargo, uma mercê. Pessoas dessa categoria só servem para encher-lhe os ouvidos com palavras enganosas: espelhos que o persuadem de ver, mas ocultam o que há por trás. É claro que não estamos falando de incompetência. O seu estagiário, embora saiba muito bem que o seu poema rimando lua com falua é um lixo, muito provavelmente não lhe dirá a verdade. Mente porque não é livre, e seu conselho não terá valia. É como se ele tentasse vender um carro dizendo ser invisível e você acreditasse.

Mas não só o conselho do não-livre é inútil. A síndica do seu prédio, que às sextas-feiras faz curso de pintura em pano de prato, embora não lhe deva satisfações, nem por isso saberá opinar sobre o seu corte de cabelo. A inocência de um conselho não garante que será um bom conselho. Não que não sejamos capazes de apreciar a ingenuidade. Sabemos muito bem o que se esconde por trás; não ignoramos a profunda raiz de verdade que a sustenta. Apenas que... preferimos... bem, você sabe. Que os sacerdotes cuidem dessas pobres criaturas.

O bom conselho, esse só poderá ser dado por aquele capaz de dizer-lhe bem e mal, mas principalmente mal. É muito mais o açoite do que o afago. Suas palavras não são espelhos, mas punhais de gelo: impassíveis ao seu sofrimento. Antes sofrer pelos punhais do que continuar a refletir-se inutilmente. A vaidade é sempre um logro. É difícil dizer sempre, mas parece ser a verdade. Que nos convençam o quanto antes do ridículo que fazemos. Que um pé de jaca caia sobre nossas cabeças durante nossa melhor apresentação. Que nos digam logo o que somos e o que não podemos ser.

Não ignoro, é claro, a dificuldade de identificar um bom conselho. É talvez aquele que se assemelhe o quanto possível a um raio, a uma tempestade, a um deslize de terra. Um impacto simples, instantâneo, visível. Algo que nos assolasse a imagem refletida no lago como a sombra de um pássaro enorme e que nos fizesse voltar os olhos para cima com um tremor da alma. Não é, certamente, o simples adágio que a sua vizinha sabe de cor e aprendeu com o avô. É um fisgar profundo, frio que o trouxesse para a superfície, para o gole de ar honesto e estimulante.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Como um Galho Seco

"I am not at liberty to reveal
my sources, but I can assure you,
the price on your head is high"
(Edric, Spymaster of Trest).

Ah, mas essa nem de longe é uma notícia desagradável. É como se em quem me perseguisse eu tivesse ao menos o consolo de haver meus feitos julgados dignos o suficiente para deles alguém se ocupar. Uma falácia, é claro, se eu me permitisse consultar rapidamente a realidade e ver que a perseguição não transformou em ouro o passado. Mas poderia ser um indício. Sim, considerarei como um indício, uma feliz desconfiança de que o mal persegue-me por ver em mim seu natural inimigo. E eu, que pensava de nada haver valido toda a minha vida, morrerei injustamente enquanto tomava o café na cama. (Um único tiro no peito, a sacada encontrada aberta pelos policiais, os criados atônitos com o pérfido crime).

O passado, esse sim, é desagradável. Pudesse verter ácido pelos meus ouvidos, um ácido especial que dissolvesse minha memória, nada restando em meu crânio senão uma massa vazia e inocente, ainda assim não seria o bastante. É necessário despejá-lo sobre toda a existência, baldes e mais baldes de ácido irrigando fumegante meu corpo. Talvez uma mistura alquímica que obtivesse o novo, o não conspurcado, um ramo que enegrecido e reduzido a um galho seco pudesse ser novamente plantado. Se não é possível livrar-se do passado, que ao menos linhas suficientemente longas e ordenadas de novas folhas possam esmaecer as amareladas, tornando-as irrelevantes pontos para o aspecto geral.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Os Bancos da Orla

"Ó mar, o teu rugido é um eco incerto
Da criadora voz de que surgiste"
(Gonçalves Dias)

"Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas"
(Sophia de Mello Breyner Andressen)

Os bancos que ficavam na orla da praia eram pintados de branco e azul. Alguém havia dito que eram assim para que lembrassem o mar. O azul seria a água e o branco, a espuma. E, de fato, os bancos haviam sido feitos num formato que imitasse as ondas, acomodando três assentos em cada sinuosidade. Achei grosseiro que pintassem de azul e branco, como se não fosse o bastante que o mar surgisse cercando e difundindo suas cores por toda a ilha, e fosse necessário recordá-lo a um observador desatento. Mas talvez representassem apenas as cores da bandeira da cidade e não as do mar, o que só torna a coisa ainda pior: não por devoção àquele que tudo cinge, mas por um patriotismo néscio e desnecessário pintaram os bancos de branco e azul.

De qualquer modo, o mar não precisa que o lembrem quando é ele mesmo evidente, seja em suas cores, seja na sinuosidade de sua superfície. Defrontá-lo com algo que se o assemelhe é apenas um intento patético e humilhante, já que é difícil imaginar que espécie de artífice poderia competir com uma presença tão atroz e onipotente. Melhor seria que fizessem como as calçadas da praia de Copacabana, imitando as ondas quando inundam ininterruptas a areia. Ao invés de erguer-lhe um obstáculo, feito uma saudação insolente e obtusa, estenderam-lhe reverentes as calçadas como a continuação de suas ondas. Forjaram submissos as pegadas do mar, temendo e amando aquele que um dia - inevitável - viria para tomar seu trono sobre o Corcovado.

Mas não falarei do futuro, eu que babo chá e não vejo na borra de minha xícara mais do que um motivo para lavá-la. Que sigam as ondas incessantes e ruidosas sobre a areia, como mil lábios espumosos alisando a superfície granulosa; como miríades de demoninhos que cavalgassem selvagens e ululantes contra a praia, rosnando dentígeros sobre as cristas e alçando suas espadas frágeis e fugazes, mas que, obstinadas, devoram toda a orla. O mar não precisa que nós o lembremos. Deixemos que espraie seu alarido, que avance em turbilhões e não aticemos ainda mais seu rancor com monumentos estúpidos. Quando enfim vier, que não demonstremos pavor nem falso destemor, apenas façamos a reverência devida.

O Grupo da Srta. Brodie

"Fazia questão de que a chamassem pelos dois nomes, Joyce Emily. Esta Joyce Emily estava tentando por todos os meios entrar para o famoso grupo e achava que os dois nomes poderiam estabelecê-la como alguém, mas não havia a menor chance de isto acontecer e ela não conseguia compreender por quê". (Muriel Spark, A Primavera da Srta. Jean Brodie).

Joyce Emily certamente não compreende que os círculos do mundo - os que verdadeiramente merecem tal dignidade - não se abrem àqueles que não foram feitos para eles nem se fecham aos que naturalmente lhe pertencem. Pertencer a um grupo não é aquisição nem conquista, mas um encaixe a que desde sempre se estava destinado. Mas não somente por questão de natureza. Círculos formam-se e fecham-se de acordo com questões muito mais factuais do que se gostaria. A razão do número, por exemplo. Não se há de imaginar que grupos numerosos possam sobreviver por muito tempo enquanto tais. Gradualmente se quebrarão em outros, mesmo que suas partes sejam parecidas o suficiente para constituírem uma unidade. É esperado que determinados círculos fechem-se em razão de não desejarem ser cinco, mas somente quatro. De outro modo, que seriam? Mas há ainda outra questão muito mais importante do que a do número. Os círculos do mundo são mais do que singularidades reunidas por algo em comum. São rodas de carroceria, de moinhos, de uma mesa de chá. A lealdade que os liga não é apenas de natureza, mas de casos que a sorte ou a providência divina criou e que não poderão ser recriados sem que isso implique no aviltamento de seus integrantes. Pequenas questões, mínimas histórias, como folhas secas arranjadas casualmente pelo chão, vão marcando e limitando os corações, preparando-os para especiais recepções que jamais - jamais - serão destruídas ou falsificadas. Joyce Emily não poderá entrar para o grupo da Srta. Brodie, não simplesmente porque sua natureza destoa de suas integrantes, mas principalmente por carecer daquilo que as lançou em um laço comum. As pequenas marcas de ferro quente em suas peles que lhes dão tanta doçura e causam tanta inveja decidiram para sempre quem lhes pertence e quem não. Semelhantes círculos não seriam tão prestigiados e tão queridos se fossem meramente esquemáticos, vazios e livres. É o fato de surgirem com a própria vida que os torna únicos e, por isso mesmo, restritos, como ervas que se entrelaçassem naquele parapeito e em nenhum outro mais.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Piedade

A glória é da natureza. A glória pertence aos deuses. Os mortais recebem-na como dádiva. Da natureza e dos deuses depende quase todo o sucesso de nossa empresa. O suor inutilmente poreja se nada nos foi dado antes. O empenho humano é uma ninharia, um arranjo de veleidades que se levantam e tombam conforme uma vontade superior e inapelável. O que é um homem melhor senão um homem dotado por natureza? O que faz além é apenas o coroamento de uma majestade que já existia. As honras são mais dadas do que obtidas. Ai, ai! Os mortais se lamuriam. Os cristãos estão certos em oferecer-nos consolo.

O cuidado, a perfeição, o intento são coisas humanas, misérias que se atropelam. Se se alcança a harmonia, assim apenas é enquanto quiser a natureza. O escárnio dos homens parece pouca coisa perto do escárnio dos deuses. Sem eles, a vida é como uma interminável e vexaminosa procissão de erros. Sem eles, só há crime, pudor e humilhação. Que virtude não é divina? Quem a tem por vontade própria? Sem pedir, sem o querer, a nós são dados todos os bens. O que nos resta é o carro com baixa tributação. O financiamento de uma casa. Um shampoo que nos saiu barato. Refrigérios que vicejam na pobreza e no desespero.

E por isso arrefecerei meu querer? Não, está claro. Tais coisas pouco interferem em nossas vidas. Como o escravo que se conscientiza de seu jugo, assim me conscientizo de minha absoluta dependência do que já me foi dado. Para que a fortuna indômita não nos atordoe, empurramos a charrua olhando para um mínimo de terra que se passa e que ainda se há de passar. Querer ver além é uma insanidade. É contemplar a sombra do infortúnio sobre toda a faina humana. Nosso zelo quase nada significa. Os deuses desmancham indolentes tapeçarias urdidas por noites insones. Como se fosse bagatela, cozinham o arroz arduamente cultivado.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Mulher Rueira

"La buena esposa conviene que mande en los asuntos de puertas adentro de la casa, teniendo cuidado de todo de acuerdo con las normas establecidas. No debe permitir a nadie entrar sin saberlo el marido, guardándose principalmente de las conversaciones de las mujeres callejeras, que tienden a corromper los ánimos." (Aristóteles, Livro III, Econômicos).
Mulher rueira. Para os que acreditavam ser um tipo social exclusivo do proletariado brasileiro, eis aí a prova de que elas existem desde pelo menos a Antiguidade. Não quero com isso, é claro, lançar sobre elas um matiz mais natural e benéfico, mas apenas alertar as boas moças - as que ainda restam - de que moda alguma as poupará do escárnio eterno da posteridade. O que a sociedade e o tempo sutilmente urdem não se revela senão por meio de inteligência e senso. Senso de honra, dignidade e devoção aos deveres naturais.

Como eu gostaria de morrer

Talvez tenha sido muito talco na infância, mas a minha morte eu gostaria que fosse em completo esquecimento. Não que eu fuja das lágrimas. Essas não me satisfariam nem se rolassem feito regatos. Mas meus últimos momentos reservo para um confidente eterno, diante de um monte nevado, sob um dossel de faias ou aos pés de um carvalho. Não sobre o leito de um hospital, cercado de parentes e suas crianças assustadas. Quero antes que o mar vele minha morte, que a praia toda sinta minha existência agonizar e perecer. O céu seria todo o meu consolo. Minha tumba far-se-ia ao vento e ao pó cobrindo-me lentamente.

Meus derradeiros suspiros não serão para os ouvidos mortais, para os que fungam e soluçam entrecortados de baba e ranho. De minha morte só haverá lembrança quando eu houver enfim desaparecido, quando eu for mais rocha do que osso. O longo tempo transcorrido impediria que alguém me lamentasse de maneira escandalosa e inapropriada. Meus futuros pranteadores não habitarão senão os dourados salões e os jardins geométricos, e para mim reservarão não mais que um suspiro ou uma exclamação de comportada curiosidade. Levariam, se muito, um lenço bordado aos olhos, secando-lhes uma ou duas lágrimas.

Alguém, alto e de tamancos, com as meias esticadas e as faces bem constituídas sob o pó, talvez ainda dissesse, muito sério, muito digno: "Lamentável. Mais cinco anos e teria visto o primeiro carro voador espatifar-se contra o edifício do Ministério". E sairiam todos para um pic-nic, para uma porta envidraçada que abririam dois lacaios. Pois não haveria mais motivos para chorar minha banal derrota, mas apenas para enaltecer minha glória e meu estojinho de faiança. Minha morte já teria se esvaído como o sal infinito das vagas, e chegaria bonita como contemplar o laço de um sapato e o abismo sob os pés.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Há dois, somente dois e tão só!

Farei aqui um breve, brevíssimo pacto: eu direi que neste mundo há somente dois tipos de pessoas, e você, em resposta, concordará com um ligeiro aceno. Se é necessário? Como a terra o é para a semente. Pois bem, sobre a face sobranceira do mundo, conforme o combinado, há apenas dois tipos de pessoas: as que, ao correr, fazem "patchakabum ploft karabum" e as que fazem "tuc tuc... tuc tuc". As primeiras correm como se o próprio Xerxes fustigasse-lhes as costas e forçasse-os em obtusa marcha. As segundas correm, ao invés, leves e hábeis, como se um flautista acompanhasse-lhes o belo compasso. As primeiras sofrem e suam, as segundas parecem dançar.

Os primeiros são nossos escravos, seja por natureza ou por infortúnio. Os que são por natureza o são por vontade própria. Os que são por infortúnio o são contra sua vontade própria. De qualquer modo, um e outro correm desesperadamente e sem harmonia; não sabem que direção tomar nem qual ritmo devem seguir, apenas ouvem o zunir do chicote e os brados de seu senhor. Nada farão bem feito, mas atropeladamente e sem conhecimento, amontoando as ordens de má vontade e extasiados pelo medo. Entendem apenas uma linguagem: o que dói e o que não dói. Como o mortal que lhes açoita, obscuramente perecerão. São escravos como o ferro o é do ferreiro.

Os segundos são livres, e só o são por vontade própria, jamais por infortúnio. Tudo o que fizerem será bem feito, pois o fazem de livre vontade. Seu compasso será sempre belo, pois que suas pernas seguem o ritmo natural das coisas, e não o de outro qualquer. Não temem uns aos outros, porque que igualmente livres. Sua vontade busca naturalmente a harmonia e a perfeição, pois que não sujeita a outra vontade. Sabem que a única vontade bela é a que segue a vontade do que é primordial, e valorizarão sua liberdade. Não conhecem o desespero, pois sua vontade assenta-se sobre o eterno e não sobre a de um mortal. São livres como as montanhas e os regatos.

Agora, meu amigo, veja bem o que faz. Certamente não queremos ser escravos. Queremos ser belos, agir decentemente e fundar ao nosso redor delicados jardins. Nosso andar deve ser constante, suave, como um ritual. Às nações bárbaras, que ergam seus arranha-céus de ouro e aço, seus hotéis luxuosos e suas piscinas iluminadas. Que ululem e banqueteiem faustosamente. Convém-nos antes a liberdade doce, como o crescer lento das heras, da videira. O estardalhaço reservamos aos que sentem prazer em chicotear e em ser chicoteados. Nós, não. Nossa memória ecoará como sons de flauta e de cítara. Nossa imortalidade será como a neve, como o pinheiro.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Na Antecâmera I

"(...) conjuro-vos, então, a não ceder hoje, 
a lutar bem junto à espuma das vagas na areia
e a garantir dessa forma a própria sobrevivência,
mantendo o domínio sobre este local."
Tucídides, Livro IV, § 10

Nada de especial se lido isoladamente. Porém, se comparado com o restante do texto - impessoal, longamente discorrido - é como um copo d'água em um deserto. As imagens sobrepostas, a nitidez com que se vislumbram os pés dos soldados fincados na areia fazem de um detalhe breve o resumo de toda a ideia: que lutem firmes, sem jamais perder o ânimo; que mantenham suas posições, custe o que custar; que permaneçam  em tal lugar e batalhem de tal e tal maneira, pois só assim se obterá a vitória. Mas cem palavras como essas não alcançariam a força e a precisão das que, sendo escolhidas entre muitas, são poucas e valiosas. Não somente, no entanto, é a seleção a responsável pelo seu valor, mas a sua raridade, a palavra em si mesma, também a eleva perante as demais. Pois a poesia - ah, sim, é de poesia que penso tratar-se - não é resultado de um mero esforço, de um trabalho de ourives. Talhem o quanto quiserem a pedra vulgar, não alcançarão algo muito maior do que a própria matéria permite e condiciona. Se não me engano, Maiakóvsky insistia muito na importância do trabalho para o poema. Ele e tantos outros. Mas o que não é para ser poesia jamais o será, independentemente do quanto se desgastem sobre. A pretensão nada é quando os meios não a acolhem. É necessário que as palavras certas sejam encontradas, e não criadas pelo artífice fugaz e apaixonado.

E é claro que eu já me distanciei do que pretendia. Queria apenas dizer o quanto me agrada ver uma sentença bem composta e viva em meio ao que é apenas um texto. O efeito, assim entendo, não teria sido o mesmo se eu o houvesse encontrado dentro de um texto com intenções poéticas. E como disso eu pretendi dizer algo a mais? Apenas que o trabalho incessante não é essencial, é até mesmo dispensável. Mais vale a espontaneidade do que já se sabe do que o saber através do aprendizado árduo. Sempre aquele será mais leve, mais fulgurante, melhor. Este apenas o copia como pode. Os poetas sabem disso, mas alguns deles parecem comprazer-se em iludir os que não sabem de que de algum modo eles poderão saber.